domingo, 7 de junho de 2015

POEMAS DE JOÃO VÁRIO


En [Light and Colour (Goethe's Theory)] – J. M. W. Turner



Mas ontem, ontem falámos desse homem.
E, no entanto, a cruz é a menor das promessas.
Oh, sim, lembramo-nos de que ignorávamos
o que se chama o domicílio, o valor,
o opúsculo, esta ou aquela agrura
mais do que matar o irmão. E de como
serve uma casa morta, o irmão morto,
a intensidade ou tal coisa
mesmo intensa, intensíssima.

De resto, há quanto tempo, oh
há quanto tempo não sabemos falar
do passado? Certamente,
o rigor, a infidelidade, a tensão –
espantos do último trimestre, esta
quase arte funerária com que elevamos as vozes
não ignoram que nos vendemos
por outro contágio: esse gosto
de ser verdadeiro, ou tal juro.

Porém, ontem, mas vede bem, ontem,
omitimos, propositadamente, o que
sabemos da perplexidade. Mas quem sabe,
quem sabe se tal será legítimo ainda?

[p. 9]


Talvez não tenha chegado ainda o tempo.
Porém, há muito tempo já que devia ter vindo.
Por isso estamos inquietos.
Porquanto esta raça, sentada sobre as suas fezes,
não deplora tamanha ausência de peso.
E estes homens levam carne santa na aba dos seus fatos,
e com a aba tocam no pão, ou no guisado,
ou no vinho, ou no azeite, ou em outros alimentos,
mas decerto a mão, para edificar, sairá
da amarga ferida da largura do mundo,
sobre todo o trabalho dos seus sepulcros,
na borda da santificação,
e, como em Dostoiewski,
nenhuma vida poderá prescindir da piedade.

Tão pouco se poderão vestir com os seus umbigos,
ou cobrir com as vísceras frescas das adivinhações.
Porquanto o fruto principal da alma é a verdade,
pela qual todas as coisas estão na sua firmeza.

[p. 169]


Não viemos para sagrar estas dúvidas:
o tempo gera os seus próprios haveres.
Mas, se dizemos que trouxemos os dons e os selos,
é porque viemos para a vida e para a morte,
para o exercício místico da sabedoria,
da maturidade e da solidão,
esses enigmas densos que a probabilidade retalha
sob os nossos pés para nos falar de cidadania,
tal todo o homem é essa Babel que os deuses receiam,
como possuímos todas as coisas pela sua metade divina
e facto, sono ou sangue,
nada nos conduz à fonte dos presságios.
E aguardamos os fados com a lucidez
escolhida no evangelho de João,
porque todas estas fugas são maiores que a natureza,
todas estas coisas são espessas
e maiores que o nosso entendimento,
e não vimos ontem, não vemos hoje, não veremos amanhã
porque, tal como há vida, há vítimas, e testemunhamos
 e vendemo-nos entre dois pedidos de extrema-unção,
porque tal é o sentido desta mão que melhora
e permanecemos por muito tempo os únicos pretendentes
a este reino que hospeda a assiduidade.

E, assim, em sua ira e sua farsa,
pune-nos a longevidade com a sua vara
de oiro bento e trigo maravilhoso.

[p. 165]


Resumimos: estas ânsias anunciam pactos propícios.
Eis por que hemos insistido em discorrer de tal sorte.
Ah a memória é esse alvo desviado de deus –
coisa geral, coisa relativa, coisa dúbia,
mas coisa, decerto, paga com os exemplos e o tumulto,
porém, como ver, amanhã, o que, hoje, não pertence
nem a esse testemunho nem a esse grão
distribuído aos mendigos das nossas portas?
Vivemos desse crédito, sugere-se,
e desse dom de negar que ouvimos nem
a voz do que clama no deserto
e nos absolve
porque a confusão enche a nossa cabeça
e a longevidade, qualquer que seja o mundo,
é a nossa segunda obsessão,
e constatar que não somos explicáveis
ou lembrar que perecemos
provoca essa lágrima, a primeira
desde há muito tempo, de Anteu.
É esse tormento ou essa luz,
que divide ao meio a verdade,
que nos assiste para falar de predestinação?

[p. 115]

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# Referência dos textos: VÁRIO, João. Exemplos. Lisboa: Tinta da China, 2013.




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# LEIA TAMBÉM:
* DIÁRIO DE UM RETORNO AO PAÍS NATAL [Fragmentos] [Aimé Césaire]
* ESSE É O HOMEM [breves excertos] (W.J. Solha)
* MARCO DO MUNDO [breves excertos] (W.J. Solha)
* TRIGAL COM CORVOS [breves excertos] [W.J. Solha]






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João Manuel Varela [João Vário] [1937-2007 | Cabo Verde], nasceu no Mindelo, em Cabo Verde. Estudou medicina em Coimbra e Lisboa. Exilou-se na Bélgica, onde viveu por 33 anos. Estreou em 1958, com o livro Horas sem carne (que viria a excluir da sua obra). Em 1966 publicou Exemplo Geral, primeiro volume de uma série de outros nove exemplos. Tem obras escritas sob os pseudônimos Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial. Voltou a Cabo Verde em 1998, falecendo aí em 2007.





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