sábado, 6 de junho de 2015

MOSAICO DE RUÍNAS [Tânia Du Bois]


"Exit #7" - Hani Zurob


...Tuas mãos não trazem nada. / Vazias, elas te ajudam a caminhar por entre ruínas..”
(Vera Casa  Nova)


Tarde de domingo. Do mar, escuto o que diz em voz alta. A vida senta-se, desconfiada do mundo, ao perceber que a nossa história não está sendo ouvida e pouco preservada e que as palavras caem como chuvas em chamas: as ruínas culturais, emocionais e materiais. Segundo Tatiana T. Coelho, “vivemos de ruínas... / por outrem descobrimos os que fomos, / buscamos encontrar o caminho e nos deciframos.”.

Ruínas, para mim, têm vários sentidos e um deles é o fim dos sonhos, das conquistas do equilíbrio pelo melhor caminho. Fica presente apenas o nosso medo, civilizatório. É sentimento difícil de se admitir, mesmo que, em algum momento, já tenhamos tido gestos em que“arruinamos a nossa vida”, como ajudar a alcançar as ruínas, desestabilizando até a mãe natureza; como mostra Jorge Tufic, “Passei anos a olhar / para as coisas que se destroem. / Muros de pedra / casas antigas, alpendres estrangulado...// Nem que o lugar / se tomasse de ruínas...” Ao constatar que a vida não é satisfatória, alerto que a boa qualidade de vida pode significar libertação.

Pedro Du Bois, em seu livro O Coletor de Ruínas, mostra que é possível criar para o presente e para o imprevisível olhar o que se esconde atrás do ponto cego, sobre a realidade e a percepção do mundo, como no poema: “sobre a terra / queimada / brota a planta / em seqüência // (sustenta a fome / dos animais criados) // sobre a terra / insustentável / o vento trabalha sua parte.”

Davi Arrigucci Jr., em seu livro O Cacto e as Ruínas, de crítica literária, analisa dois poemas: O Cacto, de Manuel Bandeira e As Ruínas de Selinunte, de Murilo Mendes. As Ruínas de Murilo mostra a desordem das pedras caídas e a destruição, ”Sobre o mar em linha azul, as ruínas / severas tombando //... Para a catástrofe, em busca / Da sobrevivência, nascemos.”

A literatura é uma das maneiras de ver o passado e, ao conviver com ele, diminuir as “ruínas do dia-a-dia”. Nesse caso, vale avaliar o que realmente é importante para nós. Quais as tradições que gostaríamos de manter e quais histórias queremos contar aos nossos netos. Também, devemos pensar como reagir diante das “ruínas”. Como evitar que elas aconteçam? Álvaro Pacheco, escreveu, “... Pois Camões cantava a glória / e eu canto o desespero / deste tempo poluído.” E Tatiana T. Coelho reflete: “Para onde foram os sonhos? / Ruínas levadas pela correnteza da vida.”

Os poetas declaram, como em Pedro Du Bois, “Fomos a descoberta – passo a passo – e somos o encoberto ser insatisfeito em necessidades. Alguns colecionam, outros coletam ruínas. Com tal perspectiva, só nos resta o tempo como desafio para evitarmos a “ruínas”, como em Octávio Paz, “La irrealidad de lo mirado / da realidad a la mirada.” (A realidade do visto / dá à vista realidade)

Vida e realidade caminham juntas nas diversas formas de elevar o nosso mundo a uma nova dimensão, entre elas, as artes e os gestos, que nos levam a pensar em como evitar a construção do mosaico de ruínas.




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Tânia Du Bois, natural de Sarandi, RS, residente em Balneário Camboriú, SC. Pedagoga. Articulista, cronista e resenhista. Colunista literária do Jornal Correio do Município, Itapema, SC e da A Revista SC. Colaboradora do Projeto Passo Fundo.





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