domingo, 14 de junho de 2015

CONFISSÕES DE UM NÃO-TELÚRICO ou As boas inquietações de se ver visto noutros olhos [Dércio Braúna]


Carnaubal, de Sávio Sousa



I. CONFISSÕES PRIMEIRAS

Nasci, cresci e vivo numa região do interior do Ceará – o Vale do Jaguaribe. Habito esse lugar. Limoeiro do Norte, a cidade onde nasci, dentre algumas identidades que carrega (que a fazem carregar os discursos sobre ela), está a de ser terra de poetas, “a cidade brasileira com mais poeta ‘per capita’”, daí o dito de que “quem não é poeta em Limoeiro, de Limoeiro não é.” [LIMA, 2012]

Se essa identidade tem fundamento nas ciências demográficas, nos números dos censos, etc., isto não posso dizer – o saber que tenho não alcança a tanto. Resta aos escreventes limoeirenses a sina de conviver com essa identidade – bonita, não resta dúvida, tão mais idílica que outras que, em tempos recentes, se agarraram ao nome do lugar.

E a essa identidade se atrelam outras, cada qual portadora de consideráveis (assim entendo) implicações. Uma dessas identidades correlatas, assim digamos, é aquela que associa a escrita poética do lugar Limoeiro ao telúrico, ao apego às coisas da terra. Mais uma bonita identidade, não resta dúvida; carregada do cheiro da terra, da vida do chão, segundo a definição dos dicionários.

Nunca havia atentado para isto, para estas identificações em relação ao meu lugar; nunca havia sentido a necessidade de pensá-las. Até que fui colocado, contraposto, diretamente, a elas, parecendo assim confirmar-se aquilo que dizem certos senhores-pensadores destas questões: a identidade se constrói no encontro (neste caso, escrito) com um outro. A certo pensador destas problemáticas (Kwame Anthony Appiah de seu nome), “o fato de que as respostas de outras pessoas desempenham um papel crucial  na configuração da ideia que cada um  tem de si mesmo resulta incontornável no marco das relações humanas normais.” [APPIAH, 2007, p. 163]

Eu não tinha ciência, ou melhor, eu não tinha experiências nestas questões. Nunca antes me havia visto nos olhos alheios. Nunca antes havia lido o dizer de alguém sobre o que eu era ou não era em minhas escrevências. O que então havia escrito era meu e somente. Ainda que aí estivesse o vasto mundo, o que escrevia (pensava eu) era ainda cria só de minha solidão criadora. Foram os alheios olhos leitores (cavalos madrugadores, cascos pisoteando o intocado orvalho das pradarias das manhãs) que me chamaram para o sol do dia deste vasto mundo do viver, onde somos e vamos sendo à medida desses encontros e partilhas.


II. OS ALHEIOS OLHOS

Num texto poético, pungente, publicado em 26 de junho de 2012, no Caderno 3 do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, o professor e escritor Batista de Lima foi o responsável por me fazer atentar para essas questões, para essas implicações entre os lugares e suas esperáveis identidades. Ou, ainda mais propriamente dizendo: para as implicações entre minha escrita e meu lugar.

A dado ponto de seu texto, intitulado Coisas milagradas, o professor Batista de Lima afirma: “diferente dos outros poetas de Limoeiro, Dércio não é telúrico”. Ao ler isto, de imediato, algo em mim se inquietou. Mas prossegui na leitura. Para logo a seguir ouvir das linhas do professor Batista de Lima (atento leitor que é) que, em minha escrita poética, “o rio Jaguaribe, que banha a cidade, não aparece, as carnaubeiras, completando a paisagem, não falam.” [LIMA, 2012] Inquieto ante o que lia, concluí a leitura, todavia. Só ao fim, páginas pousadas ao lado, me pus a considerar as afirmações lidas. (Os cascos dos cavalos – crias do mundo vasto –  haviam pisoteado o intocado orvalho de minha solidão criadora. Suas pisadas – ato belo e violento – já não podiam ser apagadas.)

Mas considerava ainda apenas para mim, na solidão do meu pensamento. E, de fato: nas linhas de minha escrita não correm o Jaguaribe, não falam, sequer balouçam, os carnaubais, essa paisagem tão próxima – e digo isto de modo literal, objetivo: diante de minha janela, enquanto escrevo estas linhas nessa manhã de domingo, os carnaubais seguem suas fainas, seu dançado ao vento, juntamente com os estrangeiros pés de nim [Azadirachta indica A. Jus], já tão nativos em nossas paisagens banhadas pelo (seco, ao menos aqui) Jaguaribe. Ao confirmar isto, quase que (ou fui?) tomado por um sentimento de desnatura: por que estas coisas da terra não estavam em minha escrita?, por que não as dei fala? (As pisaduras dos cascos dos cavalos cravavam suas memórias.)

Fiquei ruminando essas inquietações; buscava uma compreensão, um entendimento para elas. Tudo isto no foro íntimo das paredes da minha cabeça.

Até que, novamente, elas me foram colocadas pela escrita alheia. Desta feita, pelo texto do escritor e jornalista, vivente de Brasília, Lourenço Cazarré. O texto, intitulado Painel do conto brasileiro, me fora enviado pelo amigo e companheiro das venturas e desventuras da profissão bancária, Ronaldo Cagiano. Estava numa coluna do nº 148 do jornal Rascunho, de Curitiba, de agosto de 2012. Em seu texto, Cazarré faz um exame de obras inscritas no Prêmio Brasília de Literatura, no gênero conto. Depois de discorrer sobre os números obtidos ao final de seu levantamento (por Estados, por editora, etc.), Cazarré finda por destacar “oito autores jovens, ou não-badalados, cujo trabalho considerou de qualidade”. Dentre esses autores, está este que vos escreve, com os contos de Como um cão que sonha a noite só. Senti-me honrado. (Quem não se sentiria?, ainda mais num meio – falo do literário – em que os “jovens, ou não-badalados” não costumam merecer quaisquer considerações, ainda mais se viventes-habitadores distante das grandes metrópoles.)

Desta feita, a inquietação que o texto lido (do senhor Cazarré) trouxe-me se instalou em mim a partir dos seguintes dizeres:

“É difícil enquadrar a arte narrativa de Dércio Braúna nas grandes linhas do conto atual brasileiro. Digamos que as histórias que ele conta não são nem claramente intimistas nem voltadas para o real. Não contribuem, como apreciariam certos críticos, nem para a psicologia nem para a sociologia. O que se pode dizer com certeza é que Braúna tem uma dicção poética particularíssima, lusitana mesmo.” [CAZARRÉ, 2012]

Saído da leitura do texto de Cazarré, o sentimento/inquietação que me ficou (para além do lisonjeio da menção feita, reconheço vez outra) foi o de que, mais uma vez, eu me “desidentitava”, saía dos quadros da identidade esperada. Num tempo em que tanto se cobram as vinculações, os laços de pertença, vez mais (e isto era alheia gente a dizer), eu seguia por outras veredas, sozinhando-me no caminhar. Nem o trato caótico (sociológico) do mundo urbano, nem as neuroses (psicológicas) dominantes no panorama do conto brasileiro: eu não me enquadrava nas linhas mestras – apreciadas por certos críticos. (Os cascos dos cavalos seguiam sua pisadura. Por seu ato – belo e violento –, iam misturando o brando orvalho ao sujo da terra, macerada aos destroçados corpos das pequenas ervas.)

E estas inquietações não me abandonaram, continuei (continuo) a ruminá-las, estão ainda cá comigo. Foi a partir delas, desse exercício ruminador, que então me ocorreram algumas questões, que aqui as venho colocar. Poderia fazê-lo a partir da escrita doutros, desse modo não incorrendo na imodéstia de falar de algo de minha pertença. Seria, decerto, tão mais cômodo. Mas se foi justo esse ver-se ao espelho dos olhos alheios que me trouxe (não sem muita e ruminada hesitação) até este ato de escrita, por que não assumir as responsabilidades de acatar essa opção? Se foi justo esse lampejo, essa iluminação brusca e inesperada (ver-me visto nos olhos de outrem) que me despertou o incômodo, a inquietação pensadora, por que deixá-la trancafiada na solidão divina das paredes da cabeça? Isto ponderado, havia todavia, uma benesse (um pensamento que só me chegou depois): falar de uma pertença sua (minha escrita) implica não arcar com possíveis discordâncias, contrariedades do outrem falado. E, embora partindo de dizeres sobre uma minha pertença (minha escrita), intentarei fazer disto, nesta reflexão, um ponto de partida (a que não deixo de voltar, é certo), não um fim em si.

III. CHÃO E ORBE

A primeira das questões (na verdade a grande e maior questão) a colocar, suscitadas a partir dos dizeres antes apontados, tem haver com as relações que se estabelecem, ou que se entende haver, entre lugar e escrita.

Uma questão de identidade, é certo: o mais comum, ou o mais esperável, é que os lugares conformem (ou colaborem a conformar) identidade às escritas. Daí que a diferença em relação a esse pressuposto chame a atenção. Quando em seu texto o professor Batista de Lima menciona que “diferente dos outros poetas de Limoeiro, Dércio não é telúrico”, entendemos haver um rosto possível, perceptível, identificável, à poesia escrita por limoeirenses. Uma identidade telúrica, uma escrita ligada às coisas da terra, a seus elementos tornados símbolos desse laço (como o rio Jaguaribe e os carnaubais da paisagem limoeirense).

A conformação dessas identidades seria um problema? Não necessariamente. Seria (é), certamente, uma questão cujo debate poderia (pode) colaborar no estabelecimento de uma reflexão sobre o fazer literário em nosso lugar, cabendo-nos, diante dessa questão, a necessária interrogação em relação às identidades e tradições que encontramos estabelecidas nos meios em que buscamos inserção. Bem se sabe – pois que há muito se diz e se escreve – que a tradição não sobrevive sem os embates com o que lhe atravessa.

Seria (é) um problema na medida em que o canto às coisas da terra se constitua de modo estreito e excludente; na medida em que constitua símbolos acabados, fechados, que delimite os modos e formas de dizer sobre o lugar; na medida em que opere segundo uma lógica binária (ou/ou) em vez de uma lógica agregadora (e/e).

É preciso sempre fugir à tentação de tomar os lugares como essências. Não há problema algum em se ser telúrico, o há quando uma exigência se cola aos contornos de um lugar: ou és telúrico ou não pertencerás a este lugar. O que importa (e nos enriquece) é que cada lugar possa ser pátria de todas as possibilidades de escrita: satírica, realista, surrealista, experimental, ..., telúrica.

E não deixa de ser absolutamente significativo que telúrico, segundo o saber dicionarístico, além de se referir ao solo, ao chão, refere-se também ao orbe terrestre (teluriano); ou seja, em sua poesia nominadora, o termo vai do chão ao orbe, do terreal ao etéreo. Nada mais bonito que ser carregado de uma capacidade assim.

II. AS LINHAS QUE NOS TRAÇAM

Outra questão (siamesa à anterior) a apontar, a temos se tomamos o texto, antes referido e citado, do jornalista Lourenço Cazarré, no ponto em que nos diz ser “difícil enquadrar a arte narrativa de Dércio Braúna nas grandes linhas do conto atual brasileiro”. A questão diz respeito à existência dessas “grandes linhas”.

Estas seriam (são) um problema? Não necessariamente. Seriam (são) na medida em que possam excluir o diverso, o não enquadrável de apreciação pelo simples fato da diferença, do desvio que realiza. Algo a que o texto de Cazarré aponta ao dizer que “as histórias que ele [Dércio] conta não são nem claramente intimistas nem voltadas para o real. Não contribuem, como apreciariam certos críticos, nem para a psicologia nem para a sociologia” [destaque meu].

“Como apreciariam certos críticos” coloca-nos a questão que referi sobre o perigo da diferença, do desvio em relação às “grandes linhas” do estabelecido: ao se fazer o caminho desviante corre-se o risco do olvido, do silenciamento por parte daqueles que, ao “apreciarem” dadas coisas, relegam outras tantas. “Como apreciariam certos críticos” coloca-nos de manifesto a constatação de que os enquadramentos interpretativos não apenas dizem sobre os objetos que tomam em consideração, mas os constroem à medida que dizem, que falam sobre. “As práticas artísticas”, diz-nos um certo senhor estudioso do sensível e suas partilhas (Jacques Rancière de seu nome) com o qual partilho o seu pensar, “são ‘maneiras de fazer’ que intervêm na distribuição geral das maneiras de fazer e nas relações com maneiras de ser e formas de visibilidade.” [RANCIÈRE, 2009, p. 17]

Mais uma vez, vemo-nos diante da problemática da exclusão que as “grandes linhas” podem operar. O haver “grandes linhas” (temáticas) no fazer literário não é, em si, um problema. O é na medida em que essas “grandes linhas” se configurem de modo predatório, impedindo e devorando a possibilidade de existência e convivência com outras linhas não tão grandes, não tão fortes ou eloquentes, mas que representem outros caminhos, que por sua vez levem a outras paisagens de contemplação sobre o existir. Afinal, as paisagens, há quem o diga, é, antes de mais, construto do olhar, fabrico/artefato da sensibilidade do olhador. Nesse sentido, as fronteiras também não deixam de o ser.

Se as “grandes linhas” se constituem em fronteiras vigiadas, armadas até aos dentes, se perde sua capacidade porosa (toda fronteira é lugar de passagem), então sim elas se tornam um problema, uma decretação de morte à capacidade humana de troca, de permuta, de mestiçamento (falo de almas, imaginários). Se se constituem enquanto lugar de passagem e de contaminação recíproca (falo de almas, imaginários), então as “grandes linhas” se tornam casas-grandes abertas de par em par, todas as portas e janelas, para quem queira por aí passar, podendo seguir ou ficar, sem amarras, sem grilhões aos pés. “Grandes linhas” fechadas são prisões; “grandes linhas” abertas são paisagens abertas ao mundo.

III. ESCREVENDO (E RASURANDO) IDENTIDADES

E é certo que estas são questões muito maiores, de muitas mais implicações no campo literário. É também certo que no espaço de uma reflexão breve como esta – partida de algumas inquietações muito particulares, pessoais – não é possível adentrar a essas questões maiores com a profundidade que suscitam. Permito-me apenas, para dar a ver isto que digo, alargar brevemente (mas ainda dentro da geografia dos meus afetos) o horizonte do que aqui venho propondo.

Esse alargar de horizonte tem haver com uma temática que me é cara (a geografia do meu afeto que digo), tanto que a ela me tenho dedicado já há alguns anos: as questões pós-coloniais e suas implicações na apreciação das literaturas africanas. Esse é um campo em que, inegavelmente, deparamos (e, por tal, carecemos de reflexão a respeito) com a problemática da relação entre lugar e escrita, com a identidade esperável entre os dois termos, bem como com o que caberia (ou deveria caber) nas “grandes linhas” que delimitam o que é, deva ou deve ser a literatura africana.

Num trabalho em que se dedica a refletir sobre os “comportamentos interpretativos”, sobre os pressupostos teóricos que embasam a apreciação das literaturas pós-coloniais, pelos quais essas literaturas são lidas, via de regra, como “alegorias nacionais”, María José Vega, catedrática da Universidade Autônoma de Barcelona, entende ser “a crítica que propõe ler e acaba lendo” as obras literárias desses espaços (pós-coloniais) “como se, efetivamente, fossem alegorias nacionais”, impondo-se às literaturas desses espaços o fardo de serem, senão, a “expressão da identidade nacional” [VEGA, 2003]. Ou seja: conforma-se todo um fazer literário (diverso, múltiplo) a um engessado arcabouço teórico do qual não se pode (ou não se deve) fugir; fazê-lo seria perder identidade, e, consequentemente, tornar-se invisível aos olhos de certa crítica.

Uma outra problemática leitora colocada em relação aos textos das literaturas de África nos é apontada por Anita Martins Rodrigues de Moraes. Diz respeito à “problemática da inscrição (ou recriação) da oralidade na escrita”, algo que seria, segundo certas interpretações, uma qualidade literária “especificamente africana”. A problemática desta percepção é que ela reatualiza determinadas dicotomias, pelas quais a escrita, uma criação e propriedade humana, torna-se índice de afastamento de uma suposta africanidade. A questão-problema a ser refletida é:

“na medida em que abordar os textos literários africanos a partir da presença de aspectos da oralidade confunde-se com destacar qualidades especificamente africanas destes textos, estamos diante de uma tese que tem funções de cunho identitário, não apenas interpretativo.” [MORAES, 2009, p. 93-94]

Ou seja, trata-se, em última análise, de um apriori, um “inconsicente teórico” na proposição de Anita M. R. Moraes, castrador de todo pensamento fecundo e aberto que as literaturas produzidas em África podem propiciar, e que “mesmo não sendo evidenciados – ou justamente quando não o são, quando não merecem apreciação crítica –, arriscam ser ‘carregados’ pelas análises literárias.” [MORAES, 2009, p. 146]

E eis aí o maior perigo. Assim procedendo, as análises literárias, “sucedendo uma ciência que se atribuía o poder de dizer o que o outro é, teríamos uma ciência destinada a dizer ao outro que ele não é”: não és autenticamente africano, pois não tens as marcas do que é autenticamente africano. É nessa perspectiva que cabe perguntarmo-nos, como o faz Moraes: “Afinal, que África nós, estudiosos, buscamos encontrar nos textos literários africanos?” [MORAES, 2009, p. 147] Uma pergunta que nos leva ao questionamento dos pressupostos dos quais partimos. O que é dizer: o problema não está nos textos literários africanos (se são ou não autenticamente africanos), mas nas crenças que sustentam o olhar e as perguntas que lançamos a eles.

E esta é uma questão que não tem passado ilesa aos criadores literários de África. Perguntam-se (perguntam-nos) eles, já há tempos, sobre essa limitadora visão sobre África. É o que o faz, por exemplo, o moçambicano Mia Couto. Para ele,

“Essa visão restrita e restritiva do que é genuíno é, possivelmente, uma das principais causas para explicar a desconfiança com que é olhada a literatura produzida em África. A literatura está do lado da modernidade. E nós perdemos ‘identidade’ se atravessamos a fronteira do tradicional [...].” [COUTO, 2005, p. 60]
“Exige-se a um escritor africano aquilo que não se exige a um escritor europeu ou americano. Exigem-se provas de autenticidade. Pergunta-se até que ponto ele é etnicamente genuíno. Ninguém questiona quanto José Saramago representa a cultura de raiz lusitana. É irrelevante saber se James Joyce corresponde ao padrão cultural desta ou daquela etnia europeia. Por que razão os autores africanos devem exibir tais passaportes culturais?” [COUTO, 2005, p. 62-63]

A resposta a essa indagação crucial, para Mia, reside em que “se continua a pensar a produção destes africanos como algo do domínio antropológico ou etnográfico. O que eles estão produzindo não é literatura mas uma transgressão ao que é tido como tradicionalmente africano.” [COUTO, 2005, p. 63] Para Mia Couto, “é preciso sair dessa armadilha”. Aceitar seus ditames é sucumbir ao retrato limitador e falso das molduras pré-concebidas. [COUTO, 2005, p. 61]

E como disse, essa é uma discussão que já há tempos se coloca aos escritores africanos, exigindo suas falas e empenhamento. Sobretudo considerando-se o fato de que por muito tempo as escritas sobre África a disseram como um vazio. Um vazio cujo símbolo literário mais conhecido talvez seja O coração das trevas, de Joseph Conrad. Não por acaso um dos mais eminentes desmistificadores dessa ideia, o escritor nigeriano Chinua Achebe, num seu texto sobre literatura africana, contraponha o vazio de Conrad à presença humanizadora criada pela escrita do senegalês Cheikh Hamidou Kane em seu “poderoso romance” Aventura ambígua. Para Achebe, “Conrad retrata um vazio; Hamidou Kane celebra uma presença humana e uma luta heróica”. Foi lendo as escritas sobre África que Achebe percebeu “que as histórias nem sempre são inocentes” [ACHEBE, 2012, p. 120-121]. Foi escrevendo suas próprias histórias que Achebe contribuiu para uma percepção outra: a de que “os africanos não são seres estranhos com nomes impronunciáveis e uma mente impenetrável.” [ACHEBE, 2009, p. 128] Que, em suma, “a África não é uma ficção.” [ACHEBE, 2009, p. 158] Parte da imensa irmandade humana, África (seus filhos criadores e imagineiros), ao ficcionarem, não carecem de pedir quaisquer passaportes de identidade. Tudo o que criarem será ficção autenticamente humana. E é assim que devem ser lidas.

IV. CONFISSÕES DERRADEIRAS

Mas, como antes dito, essa menção (brevíssima, é certo) a outro horizonte tem apenas por intento fazer ver o quanto essas relações entre lugares e escritas, essas questões de formações de identidade, esses vínculos entre crítica e criação literária são complexos. Algo a que, para uma reflexão atenta e cuidada, implicaria muitas mais linhas (páginas e mais páginas) de análises e estudos.

O que aqui deixei escrito, quiçá, possa se dizer como uma confissão. Esta talvez seja a melhor palavra: uma confissão. Nascida da inquietação que um dizer, um olhar alheio sobre o que escrevi suscitou em meu pacífico, quieto (quase diria monástico) fazer escriturístico, que até então não havia carecido de se olhar, de se ver visto noutros olhos.

A findar essas linhas, não resta senão escriturar o agradecer sincero àqueles – professor Batista de Lima e jornalista Lourenço Cazarré – que, em seus textos (ainda que não sendo esse seus propósitos, claro fique), propiciaram esse gesto. Que não se acaba aqui; prosseguirá em minhas ruminações, em minhas escrevências.

(Pois o idílico orvalho da manhã, depois de macerado ao sujo da terra e ao dilacerado corpo das ervas do chão, não mais se limpa. A poética pisadura dos cascos dos cavalos abriram o dia. E o dia, sob sua arquitetura de sol, é habitação inquieta.)

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REFERÊNCIAS
ACHEBE, Chinua. A educação de uma criança sob o Protetorado Britânico. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
APPIAH, Kwame Anthony. Las exigencias de la identidade. In: ___. La ética de la identidad. Trad. Lilia Mosconi. Buenos Aires: Katz, 2007, pp. 111-178.
CAZARRÉ, Lourenço. Painel do conto brasileiro. Rascunho, nº 148, Curitiba, ago. 2012. Disponível em: <http://rascunho.gazetadopovo.com.br/painel-do-conto-brasileiro/>. Acesso em: 17 abr. 2013.
COUTO, Mia. Que África escreve o escritor africano. In: ___. Pensatempos: textos de opinião. Lisboa: Caminho, 2005, pp. 59-63.
LIMA, Batista de. Coisas milagradas. Diário do Nordeste, Caderno 3, Fortaleza, 26 jun. 2012. Disponível em: <http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1153010&coluna=1>. Acesso em: 08 fev. 2013.
MORAES, Anita Martins Rodrigues. O inconsciente teórico: investigando estratégias interpretativas de Terra Sonâmbula, de Mia Couto. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2009.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2 ed. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2009.

VEGA, María José. Imperios de papel: introdución a la critica postcolonial. Barcelona: Critica, 2003  (col. Letras de humanidad).


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DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014)Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].
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