domingo, 14 de junho de 2015

A PURA PALAVRA [Dércio Braúna]





"Falo para que os que não têm voz possam ser ouvidos"
[Malala Yousafzai (jovem paquistanesa,
atingida a tiros na cabeça por talibãs num
ônibus escolar em outubro de 2012), em
discurso no plenário das Nações Unidas,
em julho de 2013]



I. ARGUMENTAÇÃO DOS PUROS

A poesia não é vida.
Seus ossos, sua tenra carne, suas ligaduras
são metáforas,
       pensamento que
       a nomes de coisas se agarram
       para existirem –
       obra de “movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
       nada mais que isso”.[*]

A poesia é palavra e só.
E a palavra é convenção e não mais.
Puro signo
no reino puro da linguagem.
Eis tudo.


II. A FALA DOS IMPUROS

Não.
Não eis tão límpido tudo,
tão raso ao rés da pura ciência,
disto lembrai, ó sábios.

A palavra, convenção só,
é mais.

Lembrai sua nascitura,
sua muscular explosão,
seu fazer-se percorrendo as carnes da boca
                     (que dêem os doutos o nome
                       a essa engenharia,
                       a cada músculo-fibra aí operador;
                    isto não o sei);

lembrai sua inaudita viagem
da cinza matéria,
dos compostos nervosos,
das células-deus da cabeça,
até ganhar o ar do mundo,
                       alta e sonora,
e aí mesmo findar
                     (justo mesmo
                      no seu principiar a existir)
e aí persistir,
todavia.

É na impureza do vasto mundo
que a pura ideia
          (convenção só e não mais,
           coisa alheia ao ordinário reino do existir)
se torna coisa da vida.

Como a fala de alguém que não tem voz
e, não obstante,
nos estremece os ouvidos.


[*] Herberto Helder, in Servidões, p. 62]

* * *

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DÉRCIO BRAÚNA [1979], escrevente de coisas sentintes, é filho das terras cearenses de Limoeiro do Norte, cria de um pequeno lugar chamado Córrego de Areia, onde mãos amanham barro, cultivam o agridoce e espinhoso sumo para sustendo de suas necessidades, lavram a terra e a vida. Leitor tardio, é ainda faminto desse ato de fazer conversar pensamentos, imaginações. Apaixonou-se, já há tempo, por outras águas e terras, por outros olhares sobre o viver, por outras "imaginografias" (africanas, moçambicanas), sobre as quais tem andado a debruçar-se. Deu escritura a sentires e pensares:  [poesia] O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica, 2005), A selvagem língua do coração das coisas (Realce editora, 2006), Metal sem húmus (7Letras, 2008), A ARIDEZ LAVRADA PELA CARNE DISTO (Confraria do Vento, 2015); [contos] Como um cão que sonha a noite só (7Letras, 2010); [história] Uma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto, Nyumba-Kaya - Mia Couto e a delicada escrevência da Nação Moçambicana (Alameda Editorial, 2014)Consumido por sua paixão, segue remoendo na reflexão os fios que cruzam, os nós que emaranham a literatura e a história, sobretudo nos ditos tempos e espaços pós-coloniais. Segue também escrevinhando, espiando seu tempo, fabricando a ordinária e necessária vida que temos. Dos tantos dizeres que hão sido ditos, gosta de partilhar estes dois: 1) "A escrita não pode esquecer a infelicidade de onde vem a sua necessidade", este de um pensador francês (Michel de Certeau de seu nome); 2) "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer", este duma camponesa portuguesa analfabeta (Josefa Caixinha de seu nome, avó de um senhor escrevente, de nome José Saramago). Quiçá estes gostos que tem ajudem a compreender porque entenda que escrever é desassosegar. Seu website é este [http://www.derciobrauna.com/] e seu perfil no Facebook é este [https://pt-br.facebook.com/kayarevistaliteraria].
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