segunda-feira, 8 de abril de 2013

RELÍQUIAS DE UMA TARDE DE MAIO [Cântico aos Primitivos] (Dércio Braúna)


Obra sin nombre - Enrique López Pacheco



I.

Nem o amor, nem deus qualquer:
nada põe reparo nessa vida nossa
debaixo do castigado azul
dessa tarde de maio.

Há estas casas,
suas almas que são suas mobílias
       (os retratos encardidos,
        os pratos sujos na pia,
        as gentes fiando sonhos
        em pedaços de papel sem valia);
e nestas casas
nem mesmo os olhos empoeirados dos santos
são capazes de,
                do alto das paredes de suas moradas,
conceder a este dia,
                a seus cansados povoadores,
o bem que seus envelhecidos olhos de tinta,
um dia,
              prometeram.

              Nada repara a ausência deste paraíso.



II.

E assim vamos,
tarde de maio a dentro
        (seu sol se abrandando,
          sua poeira tangendo a memória),
com nossas parcas relíquias
     (cadernos sujos a caligrafia de jurado amor;
     vozes antigas, serenas,
     vindas ao mundo de dentro de velhas maquinarias;
     evangelhas verdades,
     atravessadas por desertos e mares, por eras e eras;
     as cifras que nos – a uns – acalantam;
     os desejos que nos sobrevivem;
     o futuro que fiamos
     não obstante as doídas mãos de agora;
     etc.;
     etc.)
– nossas tão mínimas relíquias!

e assim vamos,
a talvez as pedir
           (a nossas tristes relíquias)
que assim sejam:
           coisas votadas de um querer.

Assim como fazem aqueles primitivos
“que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos”* –
suas tão parcas
                        mínimas
                        relíquias.


[* CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Claro enigma, p. 57]






__________
Dércio Braúna [editor de Kaya] - é poeta, contista, historiador; autor de O pensador do jardim dos ossosA selvagem língua do coração das coisasMetal sem húmusComo um cão que sonha a noite sóUma nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto

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