domingo, 21 de abril de 2013

LÍRICAS ESTELARES, ACRIMÔNIA E OLOR DE MADEIRA VERDE (Webston Moura)


Passiflora citrina - User: BotBln




A tarde é um cachorro moroso,
madeira descansada na austera vida
de uma antiga cadeira enegrecida
               no fundo de um alpendre.

Coalho de leveduras,
arrasta-se paciente em músicas
de sais-gemas, goiabeiras, mormaços,
telhas coloniais, calcário.

Ao largo, o canto de sílica na acrimônia das cigarras,
bravura desesperada de luz e sigilos;
                                      acaju, pó, tempo.

(Forte, a natureza é o que há).

Em súbitos,
azulões, rolinhas caldo-de-feijão,
pica-paus, anuns, sabiás, golinhas:
             vidas que sagram-se ao voo,
                               inevitáveis, alertas.

Não muito longe um homem dispõe de um esmeril
e tange a reza definitiva nas bordas de objetos quase crus.
A máquina chora sua monotonia acérrima,
como a dizer da agonia oculta dos braços
que lhe acionam o furor.

Em derredor, livres,
os azuis aveludados de borboletas leves
                           compõem líricas estelares
― sem o consentimento de qualquer dinheiro.




* Leia também OS MOSAICOS DE W.J. SOLHA
________________
Webston Moura [editor de Kaya] é poeta, autor de Encontros imprecisos: insinuações poéticas (Imprece, 2006). Mantém os blogs Arcanos Grávidos e Cotidiano e Mistério. Por ocasião deste poema, ouvia Mahavishnu Orchestra.


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